Depois que eu voltei da viagem ao Rio (final de Agosto de 2006) com vários cartões de memória pesando quase um monstrobyte, só de fotos, e 3 ou 4 vídeos curtinhos, percebi que realmente eu estava exigindo de mais do meu desenhista, amigo e site manager, André, pedindo que ele desenhasse todas as fotos pra colocar aqui no site. Só não deixei de insistir porque temos intimidade suficiente pra ele me mandar pra aquele lugar, se eu passar da medida.

Foi aí que eu pensei em "discutir a relação". Queria saber como ele se sentia com as minhas cobranças, se eu estava me tornando uma bruxa severa que drenava o tempo dele, se parte dos meus pedidos eram vistos como elogios aos desenhos que ele faz, ou como teimosia pura, enfim, um check-up geral destes anos todos fazendo e atualizando o nosso site.

Fernanda Breta no traço de André Leal.

Cheguei a ligar pra ele, e no meio do papo, depois de me acalmar com tantos elegios que ganhei (hihi), a vaidade me fez pensar se podíamos gravar a conversa para colocar no site. Mas ele não sabia como fazer isso, aí ele sugeriu que podíamos conversar via ICQ e colocar o texto facilmente aqui. O problema é que eu explodi meu ICQ já fazia muito tempo.

E eu quase não acreditei no que ouvi em seguida: "eu vou instalar o google-talk aqui pra gente fazer isso", putz, instalar um programa novo, será que ele bateu com a cabeça? Pra ele fazer isso, ou quer muito dizer umas verdades sobre a "bruxa" aqui, ou então quer acabar com o telefonema logo. Ou as duas coisas!

Marcamos para dali a pouco nos adicionarmos no google-talk. E continuamos a conversa, que virou a entrevista a seguir:

 

  • Fernanda B.: Oiê! Vamos reproduzir a nossa conversa do telefone pra situar os leitores que vão ler a conversa.
  • André L.: Maravilha, vamos lá. Você queria saber o que eu acho das suas cobranças absurdas e sem noção, confere ?
  • Fernanda B.: Ahhh, não fala assim que eu me sinto péssima.
  • André L.: Hehehe, é brincadeira. :-)
  • Fernanda B.: Apaga este comecinho aí. Vamos começar agora. Trriiimmm...
  • André L.: Mas o começo vai deixar a conversa mais verossímil.
  • Fernanda B.: Tá, trimmm...
  • André L.: Cuma ???
  • Fernanda B.: Triiimmmm... Triimmm... TRIIMMM...
  • André L.: Alô ?
  • Fernanda B.: Alô, oi querido!
  • André L.: Peraí, você quer reproduzir exatamente, letra por letra, toda a nossa conversa, Fefê ?
  • Fernanda B.: Não, não. Mas quero torná-la o mais verossímil possível.
  • André L.: Hahaha, reproduzindo até mesmo o "trim"?! Tá maluca ? Não precisa disso tudo, as pessoas vão saber distinguir o que é artificial do que é natural. Basta conversar normalmente (e colocar parênteses para explicar qualquer coisa).
  • Fernanda B.: Ahhh, não vão não, querido. As pessoas normalmente não conseguem distinguir uma coisa natural de uma coisa articifial. E se conseguem, preferem acreditar na versão que mais lhes satisfazem, e não na verdade.
  • André L.: É isso mesmo ! Eu fico alucinado com isso, com a falta de visão das pessoas. Elas vêem uma coisa, se preocupam com a naturalidade dessa coisa, se ela é artifical, e nem tchuns pra natureza dela, pra categoria de verdade que a coisa pode ter. Se a coisa possui algum tipo de verdade, não importa mais nada, a artificialidade, a naturalidade, blablabla, tudo lenga-lenga. A verdade é o que importa.
  • Fernanda B.: Dá um exemplo prático, pra sua amiga anta.
  • André L.: Hahaha ! Por exemplo, no cinema, você vê as atrizes sempre lindas. Elas usam maquiagem, tem uma iluminação controlada e ângulos de câmera e elas ficam lindas. Daí você pega uma foto desfavorável da mesma atriz, que saiu num tablóide cretino e pensa que ela é naturalmente feia, como está na foto do tablóide, a artificialidade é a maquiagem e a boa luz. E eu não acredito nisso, não é por aí.
  • Fernanda B.: Você acha que se a atriz aparece linda no filme, ela vai ser sempre linda, em qualquer lugar? Helloooô?!
  • André L.:Não é isso que eu quero dizer. O que estou dizendo é que a beleza que a atriz carrega no filme é uma verdade por si só, e se encerra ali. Pra quê ficar teorizando se ela é bonita ou feia "ao natural" ? Depois de ver uma foto ruim dela, você vai passar a achá-la feia no filme também ? Claro que não ! Você pode dizer que ela está bonita no filme e feia naquela foto, mas não pode pegar suas deduções e dizer que a atriz é "naturalmente feia" e "artificialmente bonita". Primeiro porque a foto do tablóide é que pode ser a coisa artificial, segundo porque a diferença dos conceitos "artificialidade" e "naturalidade" não coincide sempre com o uso ou não de um "artifício".
  • Fernanda B.: Entendo. Você já me falou sobre isso tempo atrás. Disse que era muita mesquinhez recusar a verdade da beleza em nome da verdade da naturalidade. Me lembro exatamente destas palavras!
  • André L.: Isso !!! É isso mesmo ! E lembrando que essa tal de "naturalidade das coisas" não passa de dedução. Como é que se pode comparar uma constatação "uma coisa bela" com uma dedução "isso é artificial".
  • Fernanda B.: Não se pode constatar que uma coisa é artificial???
  • André L.:
    André desenhando a belíssima veterinária Fernanda.
    Como se pode fazer isso com certeza ? Quem é que conhece profundamente as "regras do Universo" pra dizer que uma coisa é artificial e outra é natural ? Aliás, sabia que isso é uma questão ao mesmo tempo da Astronomia e da Filosofia, se todo o Universo aconteceu por acaso, ou por necessidade ?! Toda a existência pode ter sido um mero acaso, já pensou ?! Como é que nós podemos voltar até antes da existência para ver quais eram a "condições climáticas" do nada que deu origem ao "algo" ? E esse mecanismo de transformação foi forçado a acontecer, ou aconteceu sozinho ? Essas leituras do princípio da existência podem ser do domínio da teologia, mas eu prefiro pensar que é metalinguagem pura. Acho ducacete !
  • Fernanda B.: Pra quem não gosta de metalinguagem, hein, olha você se traindo!
  • André L.: Eu detesto metalinguagem como solução de nós narrativos, em quadrinhos e em qualquer lugar, mas assim, enquanto exercício filosófico (se estamos falando de um degrau acima de nossa realidade), acho massa ! E mesmo numa obra literária, se a metalinguagem for feita de maneira nova e elegante (e que faça sentido usar o artifício, hehehe), acho sensacional, eaté curto fazer, sabe.
  • Fernanda B.: Oks! Eu queria entrar neste assunto mesmo, quadrinhos. Podemos continuar como se fosse uma entrevista?
  • André L.: Claro ! Mande brasa !
  • Fernanda B.: A primeira pergunta é: existe alguma diferença entre fazer quadrinhos com personagens e fazer com pessoas reais? Você se sente muito cobrado com os meus pedidos?
  • André L.: Se você quiser eu até posso colocar umas fotos minhas no meio do texto, com legendas do tipo "André Leal desenhando a belíssima veterinária Fernanda Breta" para ilustrar a entrevista e deixar tudo com cara de publicação normal, hahaha! Tem uma ótima que você já viu: uma minha de perfil, desenhando uma de suas fotos da ida a Barcelona.
  • Fernanda B.: Perfeito! Hihi! E obrigada pelo elogio! ;)
  • André L.: Bom, sobre a diferença, não tem nenhuma muito grande, as principais são que eu sempre preciso te saber se tem alguma reação sua que não condiz com seu comportamento, perguntar até onde eu posso exagerar em algumas passagens, se as torções cronológicas, às vezes necessárias, são desrespeitosas demais... Quando eu faço quadrinhos seus com personagens é mais fácil. Quando tem a participação de amigos seus, gosto de conversar com eles também, pra ficar tudo nos conformes.
  • Fernanda B.: Você acha mais difícil fazer quadrinhos comigo do que com personagens inventados?
  • André L.: Não é mais difícil, é mais trabalhoso, porcausa de todos estes detalhes que falei. E ainda tem os cenários, que quando é um lugar real, procuro ser 100% fiel. Só altero um pouco os fatos, amplio a dimensão deles, na verdade.
  • Fernanda B.: Você não tem medo que as pessoas pensem que tudo, absolutamente tudo nas histórias que você faz comigo, seja a mais verdadeira documentação da minha vida?
  • André L.: É, bom, espero que as pessoas percebam que existe uma certa licensa poética na passagem de "Fernanda pessoa" para "Fernanda protagonista". Por exemplo, na HQ "Na Traseira", espero que as pessoas saibam que é razoavelmente inverossímel que você tenha jogado seu ex na
    Página 15 da história "Na Traseira", disponível na revista Front número 13.
    mala do carro e ter saído dali, dirigindo por alguns quilômetros, até o motel. Mas todo o resto da história aconteceu de verdade, foi ou não foi ?!
  • Fernanda B.: Ahhh, peraí, e aquele tapa na tal irmã da minha colega de clínica, a Manuela?! Aquilo é invenção sua! Eu jamais daria um tapa na cara de alguém, daquele jeito, num lugar público, porcausa daquilo.
  • André L.: Hahahaha !!! Tudo bem, isso foi inventado. Mas todo o resto aconteceu de verdade.
  • Fernanda B.: Nananinanão! O namorado dela, Arthur, nem existe, ele foi um personagem que você inventou e costurou na história, engraçadinho!!! Fala, vai!!!
  • André L.: Mas Fefê, se eu fizesse tudo exatamente como aconteceu, a história perderia a força, ela se tornaria um blablablá chato pra caramba. Tive que bolar algum tipo de ação, como se fosse um centro de gravidade pra fazer o tutano pesar nos ossos da narrativa. Sabia que no espaço os astronautas perdem massa óssea e alcançam a osteoporose muito antes do normal ?
  • Fernanda B.: Qual é a principal diferença entre fazer os desenhos das fotos que eu te mando e fazer os quadrinhos que me tem como protagonista?
  • André L.: É totalmente diferente, Fefê, fazer os desenhos baseado nas suas fotos não requer nenhum tipo de planejamento ou ajuste de ângulo da "trilha". Cada um dos desenhos são coisas distintas, já quando se trata de quadrinhos (das histórias que você me conta ou das que nós inventamos juntos), é como velejar, você precisa planejar a rota num papel, revisá-la várias vezes, identificar onde estão e no que você pode mexer das "dobras" da viagem, prepara tudo e depois é só executar o planejamento inteiro. Demora bastante e, no final, às vezes a história não funciona, daí partimos pros ajustes. O que você acha de quadrinhos ?
  • Fernanda B.: Eu adoro quadrinhos! Aliás foi este um dos assuntos que deram o gancho pra nossa amizade se tornar mais próxima, há 10 anos. Quando foi que nos conhecemos???
  • André L.: Em 1998, aquele foi um dia muito especial pra mim.
  • Fernanda B.: Pra mim também! Não sei o que seria de mim sem você, querido!
  • André L.: Muito obrigado ! Mas e aí, qual é a sua relação com quadrinhos ? Quais são os seus autores favoritos ? Na sua opinião, o que faz uma HQ ser boa, o humor, a história, a narrativa, os desenhos, as surpresas, o desfecho, o quê ?
  • Fernanda B.: Nahhh, você que é o entrevistado aqui!
  • André L.: Hehehe ! Que diferença isso faz, criatura ?! Isso aqui é uma conversa, nos conhecemos há tanto tempo que qualquer tipo de distanciamento entre entrevistador/entrevistado soa artificial, fica impossível! Mas enfim, podemos continuar outro dia, Fefê ? Preciso desligar.
  • Fernanda B.: Claro! Amanhã, no mesmo horário, topas?
  • André L.: Jóia ! Grande beijo, e mande um abrazzo pra Bernhardt, assisti o filme de Leonard Cohen graças a ele.
  • Fernanda B.: Oks! Bjs!

 

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